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Vai-se andando, bruxa.

  • Foto do escritor: Mariana milani
    Mariana milani
  • 10 de mar.
  • 3 min de leitura

Não é a primeira vez que alguém me diz que tenho um humor requintado. Curiosamente, as pessoas sempre dizem isso com um certo alívio, como se o humor fosse uma doença rara que, por sorte, ainda não se tornou contagiosa.



O último a me dar esse diagnóstico foi meu psicólogo. Vou chama-lo aqui de Dr. Heráclito, não pelo nome verdadeiro, mas porque ele parece concordar com aquele antigo filósofo que dizia que ninguém entra duas vezes no mesmo rio.

Embora, no meu caso, eu suspeite que entro sempre no mesmo rio e ainda por cima escorrego no mesmo limo da mesma pedra.


Toda sessão começa com uma tentativa minha de sabotar o método.Pergunto se ele fez a barba, se mudou algo na estante, se aquele livro sempre esteve ali ou se apareceu como aparecem certos pensamentos, de repente, sem convite.


É uma forma delicada de evitar a pergunta principal:

— Qual é o problema da vez?

Depois de vinte minutos, inevitavelmente estou chorando as pitangas. Porque a vida de uma mulher no século XXI parece ser feita de pequenos traumas mal desenvolvidos, como se alguém tivesse começado a construir a casa da nossa personalidade e desistido no meio da obra.


Foi então que eu disse, meio suspirando:

— Puff… pelo menos eu não sou a Mulher de Ló.

Imagine isso. Ser lembrada por quatro mil anos não pelo seu nome, ou por sua coragem, nem por uma história de amor, nem sequer por um bom prato que você cozinhava, mas simplesmente como “a mulher de alguém chamado Ló” e, como bônus, virar sal.

Sal.

não é acuçar,

não é mel,

É SAL.


Há destinos piores que o esquecimento, e esse certamente a mulher de Ló viveu.

Dr. Heráclito riu.

Depois disse:

— Se não fosse esse seu humor requintado, você estaria mais perdida que barata em dedetização.


E talvez ele tenha razão.

Veja bem: estamos em mercúrio retrógrado, saturno pressionando decisões, o scroll de rede social infinito, Rihanna continua sem lançar álbum, o planeta está fervendo lentamente, a lua mingua, inteligências artificiais já são usadas como psicólogos, o boleto chega antes do salário, o café custa doze reais e o mundo inteiro parece discutir geopolítica como quem discute quem lavou porcamente a tampa da panela.


Diante de tudo isso, a conclusão é simples:

Mexa-te.

Vai-se andando, bruxa.


Não dá para viver permanentemente naquele estado de espírito de quem chupou um limão e decidiu que agora todos precisam participar da experiência cítrica.

Procure um momento para rir.


Eu mesma não consigo passar vinte e quatro horas sem rir. Já ri sozinha tantas vezes que agora estou rindo de mim mesma digitando neste computador velho, como se o teclado fosse uma criatura paciente ouvindo mais um desabafo humano.


Talvez o segredo seja manter certas coisas vivas:a porta da casa aberta, a mesa cheia de amigos, um espaço para quem chegar depois, uma vela acesa, pão no forno, gratidão pelas pequenas coisas.

E essa estranha coragem de dizer o que se pensa, como se o coração estivesse na cabeça e o cérebro no peito.


Se amo rir e cultivar essa alegria quase bestial é porque aprendi algo importante: cada golpe da vida é apenas mais uma oportunidade de nascer outra vez.

Eu nasci muitas vezes.


Nasci subindo montanhas, descendo montanhas e descobrindo, com alguma surpresa, que as montanhas não acabam nunca.

Devo muito a essa pequena rebeldia de rir sozinha. Rir de nascer. E continuar nascendo.

Então repito:

mexa-te bruxa!


Faça uma pequena guerra química contra a tristeza. Coma um chocolate e faça um polichinelo ao mesmo tempo. Abra as janelas. Se o clima estiver mal-assombrado, acenda as luzes, tire aquelas velas bonitas e empoeiradas do fundo da gaveta, regue as plantas, mude os móveis de lugar.


Converse com o gato, com o cachorro ou com o mosquito que mora no box do banheiro. Eles são ouvintes surpreendentemente competentes.

Se está lendo isso e ainda não sorriu hoje, existem duas explicações possíveis para que isso aconteça:

1.     você está vivo

2.     você sabe ler


E isso, francamente, já coloca você em vantagem sobre uma quantidade impressionante de criaturas do planeta.

Mas se mesmo assim não conseguiu sorrir, então faça o seguinte:

leia tudo de novo.


Só que desta vez imagine que está dizendo isso a si mesmo enquanto coloca a chaleira no fogo, porque a vida, no fundo, é apenas uma sequência de pequenas cenas domésticas tentando fazer sentido do universo.

 
 
 

1 comentário


jakelineprocha
13 de mar.

My eternal white witch…


As melhores pessoas costumam carregar esse tipo de humor — quase como um pequeno segredo elegante escondido entre as palavras.

Um humor que não precisa ser explicado, apenas percebido.


Curiosamente, são também as mais incompreendidas.

Muitas vezes nos olham como se houvesse algo de errado: um leve desajuste, um parafuso fora do lugar… ou simplesmente uma certa loucura.


E talvez haja mesmo.


Porque enquanto muitos passam apressados pelos dias, sem notar nada além do óbvio, alguns de nós ainda conseguem rir das pequenas coisas — dos instantes cotidianos em que a vida, de repente, revela uma ironia delicada ou uma beleza inesperada.


Eu mesma já fui chamada de louca algumas vezes.

Talvez porque eu converse com…


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