Quadratura em Solange
- Mariana milani
- 27 de jan.
- 4 min de leitura
O ano não começou com clareza.
Começou com um nevoeiro espesso, desses que entram pela garganta e fazem a gente tossir de boca aberta.
Uma sensação de que algo estava fora do eixo, como se um gigante de nariz escorrendo tivesse montado o mundo ao contrário durante a madrugada.

E foi nesse momento que eu percebi que, no fim de 2025 e começo de 2026, tudo começou a não fazer sentido (e olha que ultimamente eu tenho deixado o niilismo se apoderar da minha existência), mas nada encaixava: as respostas vinham tortas e o tempo parecia caminhar de lado.
Arrastei as chinelas até o velho computador, tomei o café morno e, com os dedos inquietos, digitei:
MAS QUE DIABOS TÁ ACONTECENDO?
E BUM!
A resposta não veio suave, veio QUADRATURA DE SATURNO para os sortudos nascidos entre 1987 e 1991.
Segue aqui a tradução para leigos, assim como eu:
A quadratura de Saturno é um aspecto astrológico tenso de 90° entre Saturno e outro planeta, basicamente simbolizando a necessidade de tapa na cara, cof, cof, disciplina, aprendizado e amadurecimento. Agora vem a matemática
Seu Saturno natal: Capricórnio
Saturno do céu em 2026: Áries
Capricórnio → Áries = 90° (quadratura)
Quadratura = Saturno atual forma ângulo tenso com Saturno natal. Isso acontece só quando Saturno chega nesse signo, ou seja uma vez a cada 29 anos

E por que, de fato, tudo isso tá acontecendo agora?
Porque, minhas queridas leitoras, esse planetinha gasoso (nove vezes maior que a Terra), com seus sete belíssimos conjuntos de anéis, trabalha em ciclos longos. Ele anda devagar de propósito...
Se a gente for colocar ele em uma semiótica imagética, ele seria uma mulher chamada Solange, que usa batom vermelho MAC Ruby Woo, vestido de cetim com a barra rendada e botas de salto médio, carrega tarô na bolsa e, antes de dar uma baforada de Chesterfield Red na sua cara, soltaria a seguinte frase sem te dar bom dia:
— O que você construiu que ainda se sustenta?
Bem, desse texto pra frente, Saturno transiciona para Solange para deixar a sensação mais metafórica e, consequentemente, tudo o que era do contexto dele (planeta) vira dela.
Ou seja, é como se Solange esfregasse na nossa cara o que é sólido depois de anos vivendo aquilo...
Por isso, os ciclos regidos por ela são longos, como se dependesse do aval dela para saber se você amadureceu de verdade ou só se adaptou.
Ela não te ensina com susto, ela ensina com repetição, e a equação é bem clara aqui, amigas:
• você ignora um sinal → ela espera
• você repete um padrão → ela observa
• você insiste → ela fecha a conta
E, com certeza, Solange sentaria com as pernas cruzadas e sussurraria no seu ouvido:
— Eu te dei tempo suficiente. Agora vamos ver.
O sentimento vem como se ela tivesse um Straight Flus nas mãos, 5 cartas em sequencia do mesmo naipe.
E essa cobrança vem me contorcendo as entranhas, porque o preço cobrado aqui não é de agora, vem de antes, bem antes,
É uma sensação clara e nítida de:
• isso vem se arrastando.
• isso já não fazia sentido há anos.
• eu sabia, mas empurrei.
E essa sensação vem pra tudo, para todas as micro e macro decisões que vamos tomando com o tempo...
Amizades que apodreceram em câmera lenta, trabalhos que drenaram a alma antes de esvaziar o bolso, amores que terminaram muito antes do último diálogo, escolhas que você empurrou porque parecia mais fácil não decidir.
Não é castigo. É coerência exigida.
Você cresceu, mas continuou vivendo pequeno.
Você amadureceu, mas manteve escolhas antigas.
Você entendeu, mas não praticou.
Solange não cria o problema, ela revela o que foi sustentado por inércia, é como se tirasse o curativo do machucado.
E, de certa forma, assusta, né?
Assusta porque desacelera silenciosamente, como se suas escolhas precisassem ser feitas sem aplausos. E isso dói em um mundo viciado em respostas rápidas...
(pausa)
(barulho do isqueiro estralando)
(o cheiro de Chesterfield Red no ar)
— Mas há algo profundamente ético, respeitoso e maduro nisso tudo — diz Solange, olhando com as sobrancelhas arqueadas.
— Nada é aleatório, tudo é consequência. Crescimento real não acontece rápido, e mentira não se sustenta por muito tempo. Não existe nada melhor do que assumir o custo, pagar a conta, bater no peito.
E a conta disso vem nessa pequena notinha abaixo:
você para de pedir permissão pra viver
escolhe menos, mas escolhe melhor
sustenta o que começa
aceita que crescer exige renúncia
É claro que existe dor nesse processo, porque abandonar o que já não serve é sempre um tipo de luto, mas existe também dignidade, porque não há nada mais honesto do que alguém que assume o custo de viver aquilo que acredita ser verdadeiro.
E aí, minhas caras leitoras, depois dessa travessia silenciosa, algo muda, não fora, mas no nosso eixo interno.
O mundo passa a te tratar com mais seriedade
porque, finalmente,
você fez o mesmo consigo.
A surrupiar um cigarrinho da Solange,
Marimi 🪐









Maravilhosa! Saudade destas sua observações tão certeiras. 😘
Amo ler seus textos! E amei também reconhecer Solange. Sinto um misto de alegria e revolta quando a encontro, é sempre uma surpresa tensa, mas necessária.
Que texto sensacional!!!!